Ética e Liberdade – Reflexão Intelectual no Campo Acadêmico — O Caso Boaventura de Sousa Santos
Para quem ainda não saiba o que é a cultura do cancelamento
por Maria Alice Nunes Costa
Prezada Comunidade Científica do PPGSD,
Muitos talvez saibam que eu trabalhei com o Professor Boaventura de Sousa Santos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC) entre 2004 e 2010. Escrevo não apenas como docente e pesquisadora, mas também como mulher, mãe e avó, para testemunhar publicamente que nunca presenciei ou sofri qualquer forma de assédio – seja moral ou sexual – por parte do Professor Boaventura.
Pelo contrário, ao longo desses anos, testemunhei uma conduta ética, generosa e profundamente comprometida com a ciência, a justiça social e os direitos humanos.
Trago este testemunho público porque, hoje mesmo, tive um artigo científico recusado por um periódico com a seguinte justificativa:
“OBSERVAÇÃO CRÍTICA. O artigo cita Boaventura de Sousa Santos como referência.
Considerando os acontecimentos recentes que envolveram o autor e os debates ético-políticos daí decorrentes, sugere-se uma reflexão crítica sobre a pertinência de manter essa referência em um texto que discute o ‘horror contemporâneo.”
Conheço pessoalmente o Prof. Boaventura desde 2004, quando iniciei minhas atividades acadêmicas no CES/Coimbra.
Ao longo de todos esses anos, testemunhei uma trajetória intelectual e ética marcada por compromisso público, rigor acadêmico e reputação ilibada. Essa percepção é compartilhada por importantes intelectuais e reconhecidamente feministas, como a filósofa Marilena Chauí, que se pronunciou publicamente sobre a gravidade do ocorrido, e também pela esposa do Boaventura, uma renomada intelectual da área de Literatura Portuguesa, que igualmente se manifestou com firmeza e clareza sobre os fatos.
As denúncias que vieram a público foram objeto de contestação judicial, com trechos reconhecidos como difamatórios, levando inclusive à retirada do capítulo pela editora Routledge.
Não há, até o momento, qualquer condenação legal ou institucional.
Por isso, creio que, ao discutirmos temas como “horror contemporâneo”, também precisamos refletir criticamente sobre o fenômeno do “cancelamento midiático”, que pode se tornar, ele próprio, uma forma de violência simbólica quando substitui o debate racional e o devido processo pelo julgamento sumário.
Reitero, assim, a legitimidade acadêmica de manter a obra de Boaventura de Sousa Santos como referência teórica central em pesquisas sérias e comprometidas com a crítica social.
Trata-se de uma contribuição indiscutível para as epistemologias do Sul, a sociologia crítica e os debates políticos contemporâneos.
Este posicionamento não se confunde com a negação de debates ético-políticos necessários.
Pelo contrário: defende a liberdade intelectual, o devido processo, a integridade acadêmica e o direito de referência a autores centrais da produção crítica mundial.
Abaixo, compartilho os textos da filósofa Marilena Chauí e da esposa de Boaventura de Sousa Santos, para que todos possam conhecer suas manifestações públicas e refletir de forma fundamentada, crítica e responsável.
Marilena Chauí: https://aviagemdosargonautas.net/2025/08/23/contra-a-calunia-em-defesa-de-boaventura-de-sousa-santos-por-marinela-chaui/
Maria Irene Ramalho: https://aviagemdosargonautas.net/2025/10/27/a-morte-civil-de-boaventura-de-sousa-santos-por-maria-irene-ramalho/
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Profa. Dra. Maria Alice Nunes Costa
Universidade Federal Fluminense
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito (PPGSD/UFF)
Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS/UFF)
Chefe do Departamento de Arte (IACS/UFF)
Coordenadora do Laboratório LADER:https://lader.uff.br/

